Caros amigos,
Não sei do que estão à
espera, que nunca mais metem os papéis de candidatura ao QREN do Projeto
de Reabilitação da Casa da Floresta de Rebordainhos, a fundo
perdido! Para uma terra andar para a
frente não basta que os seus habitantes passem horas e horas a lerem blogues de
visionários bem intencionados e progressistas. Não, meus amigos, a senha que
abrirá as portas do vosso desenvolvimento escreve-se TRABALHO. Não sejam como os operários fabris das vielas esconsas e
nauseabundas das cidades que, todas as manhãs, quando comem o “pãozinho” quente
com manteiga, não se lembram dos trabalhos e canseiras por que tiveram de
passar os seus irmãos e irmãs rebordainhenses, desde o lavrador que lança o
grão à terra, as mondadeiras que limpam as searas verdes cor de esperança, os
ceifeiros que cortam cerce, com o suor do seu rosto, as palhas coroadas de
grossas espigas que o sol dourou, os malhadores que ficam exaustos para conseguirem
separar a palha do grão, o moleiro que do grão faz farinha branca como a neve, até
às mulheres que amassam e depois cozem o tal “pãozinho” no forno comunitário...
No fim desta cadeia laboriosa, mas também repassada de amor,
o pelintra preguiçoso da cidade ainda é capaz de dizer, com a boca cheia, que o
pão fabricado em Rebordainhos não tem ciência nenhuma!
Porém, como os funcionários da troika dizem que os
portugueses correm o sério risco de verem diminuir os seus índices de
produtividade se se quedarem no trabalho braçal, temos de mudar a agulha e
arriscar mais na via cultural.
Se todos quisermos, a Casa
da Floresta de Rebordainhos poderá ser a sede do Centro de Arte Contemporânea da Serra da Nogueira, reservando os
anexos para a instalação da Secção Norte
do Núcleo de Interpretação das Gravuras Rupestres do Vale do Côa.
Então, não é verdade que o guarda florestal Maurício, da ti
Dosolinda d’ À Chave, não esteve dois anos destacado em Goa, na Índia
Portuguesa, cumprindo o serviço militar?
Diz que quando regressou do oriente vinha com umas ideias
muito estranhas, queria que o tratassem por Maurício Andra Padrexe e mostrava
com orgulho a toda a gente a obra de arte que tinha feito na Índia: um quadro
em tela branca com as dimensões de 4 × 4 (m) que tinha apenas, no centro
geométrico do quadrado, um pontinho preto feito com uma esferográfica de ponta
fina. Tudo leva a crer que esta pintura
de cunho místico ainda esteja guardada nalguma arca velha onde o guarda
também guardava muitos alqueires de
trigo, fruto das courelas, ao redor da casa, que ele lavrava nos seus tempos de
ócio.
Ora, vós agora limpais muito
bem o quadrinho, com água e sabão, dizeis aos papalvos da cidade e da Unesco,
que o pontinho preto representa a totalidade intangível do cosmos, que só pode
ser entendida por aqueles que alcançam o estado de nirvana, alheando-se por
completo do mundo mau, e, assim, está dado o pontapé de saída para a construção
dos hotéis de charme, que alastrarão nas terras de Rebordainhos e Pombares como
cogumelos no solo húmido dos soutos outonais, aonde se irão acolher os milhares de turistas extasiados pelo ponto do grande
Maurício Andra Pradexe.
Adeus, Rebordainhos rural!
Olá, Cidade do Cabeço Cercado!
Olá, Cidade do Cabeço Cercado!

Sem comentários:
Enviar um comentário