Nas nossas latitudes do hemisfério norte, as casas têm quase
sempre mais do que uma janela. Vejamos, então, o exemplo de um doutor à
portuguesa, quer dizer, um mero licenciado do antes do 25 de Abril, ou um Mestre
atual, segundo a Declaração de Bolonha, que se põe à janela a apanhar luz e ar.
O trecho de paisagem mais ou menos humanizada que os seus olhos abertos
contemplarão depende não só da orientação espacial da janela escolhida e da
hora do dia, mas também, e de um modo
crítico, da qualidade da massa cinzenta contida na sua caixa craniana.
O 25 de Abril foi um ato heroico de libertação da pátria da
ditadura feroz do Professor Doutor António Salazar, Presidente do Conselho de
Ministros, que, na estruturação do seu pensamento político, costumava beber muito na fonte de ensinamentos de
economia doméstica de sua mãe e na nascente de água viva da doutrina da Igreja
Católica, instituição a quem devia, muito agradecido, a sua formação de
seminarista.
O estadista deposto também bebia vinho, não um refresco
verde qualquer, mas vinho a sério, maduro, com muita graduação e, de
preferência, do Dão.
Muitas vezes esquece-se de dizer que o ditador sinistro, que até parece que não queria
mais nada senão destruir o seu querido Portugal, no dia em que foi derrubado por valentes
golpistas armados até aos dentes, já estava morto e enterrado há mais de três
anos!
Numa perspetiva, sem romantismos nem lirismos, mas tão
verdadeira como outras, proponho-me dar duas ou três pinceladas sobre o que
explica o golpe militar do 25 de Abril de 1974.
Alguns oficiais das Forças Armadas Portuguesas, que vinham
sendo sujeitos a pressões excruciantes por parte da Imprensa Internacional e
dos governos de países aliados (com amigos como esses, Portugal não precisava
de inimigos!), nomeadamente, dos Estados Unidos da América e da Inglaterra,
decidiram, em Abril de 1974, derrubar o governo salazarista como forma de
declarar ao mundo a sua rendição incondicional perante os terroristas que
vinham espalhando o medo e a morte nas nossas províncias ultramarinas. Assim, a
causa primeira do nascimento e posterior expansão ultramarina de Portugal, que foi
tão só a Evangelização, a bem ou a mal, do
país e de todo o mundo conhecido e a descobrir, e que era a nossa razão de ser,
perdeu completamente o sentido ao raiar do dia 25 de Abril de 74. Era chegada a
hora de passarmos o facho luminoso da civilização, que havíamos orgulhosamente
empunhado durante praticamente um milénio, para outros idealistas mais novos e pujantes
de fé, como os cristãos evangélicos americanos e brasileiros, que ainda não
estão cansados de operar milagres, como fazer andar paralíticos, dar visão aos
cegos, tirar o diabo do corpo e enriquecer escandalosamente! Quem tem o dinheiro,
manda!
Pode ser que tenham pena de nós, que, como não temos
dinheiro para nada, somos governados por uma troica, e não nos expulsem deste jardim
à beira-mar plantado. Nascerá assim um novo país, com os nativos a aderirem em
massa à nova causa, batizado com o nome de New Evangelical Land.
No dia 25 de Abril, que continuará a ser feriado, passará a
comemorar-se o dia nacional, com salvas de canhão.

