segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Cherne

Ao mesmo tempo que as aldeias rurais quase só existem nas memórias dos seus derradeiros habitantes, o mundo vai-se transformando numa única e imensa aldeia, onde o meu vizinho tanto é o chinês que come arroz com dois pauzinhos, como o esquimó que se protege do frio no interior da sua habitação de gelo, ou o senhor Ferrão, do segundo esquerdo, que não sabe que as duas da manhã não são horas para ouvir rádio no volume máximo!

O sofrimento, e a morte !..., dos refugiados que, nos últimos dias, têm estado debaixo dos focos mediáticos, toca-nos a todos – não podemos ignorar !, tal como nos alertava Sophia de Mello Andresen.
As reflexões seguintes procuram esclarecer muita gente, enganada  e inocente, que não sabe que por trás das declarações tonitruantes dos representantes políticos da alta finança e da indústria das armas de destruição maciça escondem-se as mentiras e maldades abjetas daqueles que provocaram esta tragédia humana dos refugiados. A minha esperança está na bondade das ideias racionais que defendo e quero partilhar com milhões de pessoas, através da internet,  na certeza de que o amor, sendo mais forte do que o dinheiro e o armamento pesado de uma minoria insignificante e má, impedirá para sempre a loucura da guerra!
Temos de voltar aos Açores, ao ano de 2003, quando um Cherne recebeu na Base das Lajes três estadistas: Bucho, Bleizer e Asno. Ficou então decidido, pelo americano, que o Iraque devia desaparecer da face da Terra porque, por um lado, os iraquianos eram maus como as cobras e, por outro lado, o seu petróleo era melhor do que o milho!
Depois é o que todos já sabem: não ligaram aos apelos de paz do Sumo Pontífice, fartaram-se de matar a tiro e à bomba pessoas que apenas tinham cometido o “crime” de serem iraquianos, destruíram o estado mau e no seu lugar colocaram os fantoches traidores que governariam o novo país. Como seria de esperar, a anarquia instalou-se imediatamente e hoje os iraquianos humilhados e desesperados matam-se uns aos outros. As tais armas químicas de destruição maciça, essas, nunca foram encontradas –  afinal não passavam de um mero pretexto!
O peixe graúdo e os seus três amigos, quais jogadores alcoolizados de taberna, continuaram a divertir-se, ao longo dos anos seguintes, assistindo ao efeito dominó, desencadeado com a destruição do Iraque, da queda em catadupa da Síria, da Líbia, do Egito e de outros países, todos por mera coincidência mal governados por ditadores cujo atraso mental ia ao ponto de apoiarem moralmente o povo oprimido da Palestina!
Os primeiros responsáveis pela hecatombe vêm agora, com lágrimas de crocodilo, pedir a países miseráveis como Portugal, que eles classificam abaixo de lixo, que contribuam com boas casas, alimentação e muito dinheiro, obviamente, no acolhimento condigno dos refugiados vítimas das suas armas e do seu dinheiro sujo!
Como eles é que mandam, Portugal pode vir a ser obrigado a receber dois ou três milhões de migrantes forçados, a instalar numa faixa litoral com 12 km, entre Caminha e a Figueira da Foz. Então, sim, a nossa sociedade será realmente mais rica, pelo menos no que diz respeito à multiculturalidade, acabando de vez com a supremacia do cristianismo, à multietnicidade e à multi-imbecilidade, também!...

Num mundo decente, todos os refugiados teriam direito a usufruir de corredores aéreos que os fariam chegar às terras onde vivem à grande aqueles que os obrigaram a abandonar os seus lares, como o estado de Nova Iorque, onde o dinheiro não falta, ou o estado do Alasca, onde o que não falta é espaço!

domingo, 6 de setembro de 2015

Rebordainhos já foste vila...

Aqui há uns dias atrás, descia eu calmamente por uma das rústicas veredas da típica aldeia de Rebordainhos, acompanhado, em amena cavaqueira futebolística, pelo décimo-quinto Conde de Alcântara, herdeiro legítimo do seu ilustre título nobiliárquico que, pelos séculos dos séculos, vem sendo transmitido de pai para filho, desde que foi outorgado pelo rei Alarico, da vetusta monarquia visigótica,  ao seu mais valente guerreiro, e, quando nos preparávamos para dar uma passada mais larga para evitar molhar os pés nas águas cantantes de um arroio  que se atravessara inesperadamente no caminho, para logo se precipitar aos borbotões num milheiral muito verde e fresco, o conde puxou levemente pela manga do meu casaco de veludo azul escuro e disse-me com uma voz ansiosa:
-       Ó doutor, nós sabemos que tendes um doutoramento em Curricula e Aprendizagem, pela Universidade Lusófona de Lisboa, e outro em Enologia e Gestão de Empresas Vitivinícolas, pelo Instituto Piaget de Arruda dos Vinhos, de maneira que talvez nos possais esclarecer uma dúvida que não nos tem deixado dormir nestas últimas noites...
-       Por quem sois, vossa mercê manda! A minha sapiência estará sempre ao serviço dos mecenas que, tal como vossa senhoria, tão bem têm defendido o património, a memória e a identidade deste nosso formoso Reino de Portugal e dos Algarves – declarei humildemente, pensando para comigo que, perante este patusco, as minhas explicações brilhariam como diamantes ao sol – a minha sólida formação académica garantia-me, efetivamente, saberes e competências em quase todas as áreas científicas e humanísticas.
-        Como sois bondoso, doutor! Preciso tanto da vossa ajuda! O caso é o seguinte: já desde o 25 de Abril de 1974, vimos notando que alguns servos da gleba, debaixo da nossa alçada senhorial, não nos tratam com a reverência que é devida, por direito divino, a fidalgos da nossa condição e linhagem. Sendo assim, pretendemos transferir a sede do nosso condado para a província de Trás-os-Montes, de onde nos dizem que as gentes do povo são de uma enorme candura e simpatia, pelo que pediremos a Sua Alteza Real, em audiência privada, que o nosso título seja transformado em Conde dos Vales Pereiros, mas, antes de darmos este passo incerto, damos alvíssaras pelas referências que vós, exímio doutor, nos queirais dar sobre o meio ambiente natural, cultural, socioeconómico e político em que a nossa pessoa terá de se mover, acaso venha a ocorrer a nossa transferência definitiva para as terras altas da serra da Nogueira – dizia o conde de Alcântara, esfregando as mãos de contente.
Prosseguimos então a marcha, e eu lá lhe fui explicando que aquela gente da serra era muito cândida e alegre! Intimamente, as mentes e corações dos serranos continuavam a ser banhadas pela luz que irradia da trilogia “Deus, Pátria, Família” que, num dia de maior inspiração, o Professor Salazar lhes ensinara numa das suas mais belas e memoráveis lições.
À primeira vista, poderá parecer que nestes dias de terra queimada esses altos valores  humanos não passam de letra morta, mas quem assim pensa está redondamente enganado! É certo que a cultura de esquerda tem sido, após o 25 de Abril, dominante nos círculos do poder político e económico-financeiro de Lisboa,  espalhando miséria e terror pelos campos e praias de Portugal, mas desenganem-se os pseudointelectuais da capital que elevaram o Aristides à categoria de maior herói nacional, porque quem faz a verdadeira História é o povo da arraia-miúda que tem gravados no coração os nomes de D. Dinis, o Lavrador, Nuno Álvares Pereira, D. João I, D. João II, Vasco da Gama, Luís de Camões, Marquês de Pombal e Oliveira Salazar!...
Os modestos aldeões, quando se sentem ameaçados pela presença ostensiva dos políticos corruptos, dizem ámen com eles e lá vão papagueando a medo o lema ecologista e pós moderno “Linces da Malcata, Vestígios Fecais, Sustentabilidade”, mas, mal se apanham atrás dos montes e das moitas, pintam a manta a brincar aos médicos e a fazer caricaturas do Sócrates, do Portas, da salvadora da pátria, a doutora Catarina Martins, do indiano e do Passos Coelho, sendo este último desenhado com os dois dentes da frente muito grandes, um par de orelhas muito compridas e flexíveis,  e dentro de um tacho ao lume, a estufar entre rodelas de cenoura e cebola, temperado com vinho maduro tinto.
A geração de rebordainhenses nascidos depois de abril é a mais bem preparada de sempre! Mesmo incluindo o período áureo em que foi vila, Rebordainhos nunca teve uma percentagem tão elevada (mais de 90 %) de pessoas da sua população ativa doutoradas por universidades portuguesas e estrangeiras, graças sobretudo à aplicação do programa Erasmus que incentivou a audaz juventude europeia a partilhar competências, saberes, metas e objetivos com tal ardor que as fronteiras físicas e as mentais, que são sempre as mais difíceis de derrubar, caíram,  num instante, como castelos de cartas atirados para o caixote do lixo da História. Nos dias de hoje, uma Europa com fronteiras é absolutamente impensável!
Em cada ano que passa,  no dia da grande festa de verão, o Largo do Prado enche-se de massa cinzenta  qualificada  e em quantidade que excede, à vontade, o valor crítico necessário para preparar, em menos de uma década, o lançamento de um foguetão que leve para  a lua um homem que num domingo de sol seja apanhado no monte a roçar mato à hora da missa! Para os céticos que acham impossível lançar um homem, ou uma mulher, vá, de Rebordainhos para a lua, só tenho a dizer que em janeiro, numa noite de lua cheia, subam ao outeiro (se virem verdejar ponham-se a chorar, se virem terrear ponham-se a cantar!), longe de luzes artificiais, e venham depois dizer-me que as manchas visíveis na face da lua não desenham, assim um pouco mais ou menos como numa fotografia, os contornos de um homem com um molho de silvas às costas! Esse triste já lá estava há muito tempo quando os americanos fizeram a primeira alunagem e, diga-se de passagem, não enxergaram o pobre pecador porque estavam cegos para o que não queriam ver; estavam mais interessados na recolha de amostras de rochas lunares e na realização de ensaios e experiências indispensáveis na construção do conhecimento pelo método científico! Se tivessem visto o homenzinho, muito provavelmente tinham-no mandado às malvas!
O caminho epistemológico que muitos habitantes de Rebordainhos têm vindo a percorrer, com os pés bem assentes em suaves nuvens brancas dispersas pelo céu azul, conduz, inevitavelmente, à bifurcação onde se encontraram, no século XVII, o cardeal Belarmino e o velho Galileu Galilei. Armado com o seu telescópio, Galileu optou pela via larga do conhecimento científico, e por isso foi severamente punido; por seu lado, o cardeal, do alto da sua cátedra, recusou-se a olhar para o céu através da luneta que o físico lhe estendeu para as mãos, argumentando que as sagradas escrituras eram uma fonte de prova sobre a constituição do céu muito superior à simples observação através de um telescópio!
Claro que haverá sempre muitos, talvez os mais lúcidos, que preferem sair dos trilhos do rebanho, desprezando os políticos que os desprezam em Portugal, e embarcar em Pedras Rubras num avião low-cost que os leve até Paris, onde as ruas são pavimentadas a ouro, para, ao fim de meia dúzia de anos, regressarem, no dia da festa, ao volante de potentes Mercedes de alta cilindrada, com milhões de euros nos bolsos, preparados para erguerem mansões de sonho, com piscinas de água aquecida, na sua terra querida!

Os outros, os cismáticos encalhados nas rochas duras das dúvidas existenciais, não podem ficar muito mais tempo parados e indecisos no meio do caminho. Ou bem que enveredam pela cosmologia livresca do cardeal Belarmino que, em linhas gerais, descreve o universo como um espaço fechado limitado por uma superfície esférica onde se encontram as estrelas que, tal como o Sol, os planetas e os restantes corpos celestes, giram em volta da Terra fixa, que ocupa o centro do universo, ou aderem, de corpo e alma, à cosmologia científica, que é uma grande filha de Galileu, assim entrando de imediato na aventura fascinante que é procurar compreender o comportamento do bosão de Higgs nas suas relações íntimas com a fugidia matéria escura.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Modelo Chinês

Na minha qualidade de candidato a Presidente da República Portuguesa, publicamente assumido através de mensagens de apresentação da minha pessoa, que tenho vindo a enviar para alguns dos blogues mais visitados do ciberespaço lusófono, cumpre-me dar continuidade ao projeto de salvação da minha pátria exangue, espargindo, sobre as mentes abertas dos meus fiéis seguidores, raios de luz, transfigurados em palavras e ideias, que lhes hão de iluminar o caminho que os conduzirá à felicidade plena na Terra.

Dentro destes  pressupostos, entendo que sou maior do que o Sol, pois a luz que essa estrela de classe média nos dá provém de reações termonucleares, não sendo mais do que um fenómeno físico de propagação de oscilações de campos eletromagnéticos, enquanto o ideal luminoso que eu quero espalhar por toda a parte é metafísico, abrangendo por isso os vastos mundos sobrenaturais.
Na república portuguesa que idealizo, a exploração de um nobre e pobre operário por um patrão rico e boçal só poderá ser encontrada em velhos calhamaços de Materialismo Histórico, cobertos de pó e teias de aranha, porque uma das primeiras medidas que o governo tomará, logo após ficar submetido à minha magistratura de influência de Presidente da República recém embuçado, será a abolição, por despacho, da expressão "classe operária" e demais termos que façam lembrar o sofrimento do português comum. No exato momento em que a existência legal dos operários, enquanto tais, cessar, cairá imediatamente, por via da lógica, a exploração a que esses filhos do proletariado estavam sujeitos. Assim, na prática, a lei da greve passará a ser letra morta, abrindo-se, no entanto, uma exceção de caráter humanitário para os miseráveis pilotos de avião da TAP que continuarão a ter direito de faltar ao trabalho sempre que sintam a ameaça, real ou imaginária, de o seu salário médio - que atualmente é  de 8600 euros por mês! - não subir mais de 30 % por ano.
Se as massas alienadas pelo futebol votarem em mim, prometo-lhes solenemente que, antes de terminar o lustro que começa em 2016, Portugal será um Mandarinato, onde todos os cidadãos republicanos terão  um lugar ao Sol. Podem confiar em mim, porque foi com os pés bem assentes na terra que delineei, arrojadamente, o meu programa de candidatura que, definitivamente, não é feito de castelos no ar.
Foi na China, onde durante mais de trinta anos estudei a língua, a caligrafia, a história, a filosofia, a religião e a ciência dessa antiquíssima civilização, que me surgiu a ideia - num dia em que me encontrava na Praça da Paz Celestial, em Pequim, completamente envolvido pelo nevoeiro matinal tão poluído de fumo que mal dava para respirar, - de transplantar para Portugal o modelo chinês de desenvolvimento, na versão do que dele pude entender estudando documentos oficiais escritos em mandarim e escutando atentamente as explicações de amigos orientais, também em mandarim, sobre o milagre económico chinês.
Como acho que os chineses não são mais do que nós, continuo com a firme convicção de que se eles podem crescer nós também podemos, assim trabalhemos empenhadamente para que a organização política e administrativa de Portugal seja muito semelhante à da China, senão mesmo coincidente, como já aconteceu no passado, durante os cinco séculos de exemplar convivência pacífica entre os dois povos na Cidade do Santo Nome de Deus de Macau.
É verdade que eles produzem e consomem mais arroz do que nós, mas na cortiça ainda não nos levam a palma.
Então, em Portugal, comigo ao leme da barca, abandonar-se-á a fórmula Um Homem-Um Voto, que já deu provas mais do que suficientes de que não funciona, substituindo-a pela fórmula Um Homem – Um Mandarim, significando que todos mandam e ninguém trabalha, ou por uma fórmula também de cunho oriental, mas mais ajustada ao caráter mediterrânico do povo português: Um Homem-Um Paxá.

Diz não ao Empobrecimento!


Vota António Pires!

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Candidatura à Presidência da República Portuguesa

Portugueses,

Sou um cidadão português que não pode ficar indiferente perante a pobreza e a fome para que foram atiradas milhares e milhares de famílias pelo governo de Portas e Coelho, assumindo, aqui e agora, este compromisso de cidadania plena que é a minha candidatura à Presidência da República, pedindo a todos o apoio moral indispensável, mas também que sejam pródigos no financiamento da minha campanha eleitoral.
O documento com os detalhes de todas as minhas propostas para o desenvolvimento socioeconómico e cultural de Portugal estará disponível neste mesmo blogue, onde agora vos escrevo, a partir de 1 de julho de 2015, para consulta livre e pública, porém aproveito este ensejo para lançar na blogosfera meia dúzia de grandes ideias do meu programa político para uma década, dando assim oportunidade aos meus primeiros apoiantes de se adiantarem no estudo, que se quer profundo e refletido, do meu pensamento republicano.
No campo da instrução pública, tudo farei para que a partir de 1 de janeiro de 2017 a percentagem de população adulta possuidora de habilitações académicas de grau igual ou superior a Doutoramento ultrapasse a fasquia dos 99 %.
Os conteúdos, as competências, os objetivos, as metas e as aprendizagens oferecidas pelas escolas C + S e profissionais serão, por força de lei ordinária, de uma facilidade atroz, abandonando-se a escala de avaliações abrilista, de 1 a 5, que pretendia nivelar por baixo, e restaurando-se a escala napoleónica, de 0 a 20, com a ressalva de serem proibidas classificações inferiores a 17 valores, promovendo-se assim um nivelamento por cima.
Para quem votar em mim, a problemática da sustentabilidade do sistema de reformas e pensões da segurança social passará a ser uma falsa questão. Se o dinheiro algum dia faltar no sistema, prometo que vou buscá-lo, em nome do povo, ao Orçamento Geral do Estado, e, se algum burocrata me fizer frente, não hesitarei um segundo antes de mandar avançar os tanques de guerra, puxando dos meus galões de Chefe Supremo das Forças Armadas.
É inconcebível para mim, que sou uma pessoa humana, que um só dos meus concidadãos passe fome em Portugal neste primeiro quartel do século XXI! Darei ordens ao governo para que se institua um rendimento mínimo garantido per capita nunca inferior a 2 500 euros por mês. Os padeiros e os grandes capitalistas dos hipermercados poderão ser penalizados com termo de identidade e residência se, sem justa causa, recusarem, a um qualquer vulgar cidadão com fome e sem dinheiro, o prazer de saborear o pão acabado de cozer em forno de lenha.
Todos os emigrantes, sejam os que abandonaram o país porque lhes apeteceu, sejam os que partiram porque eram pobres, sejam os perseguidos pelo fascismo ou pela santa inquisição, serão incentivados a regressarem a este cantinho à beira-mar espraiado com um subsídio estatal de 10 milhões de euros por família, para que possam refazer com tranquilidade os negócios de que se viram brutalmente esbulhados pelos esbirros da monarquia anacrónica ou pelos lacaios da ditadura salazarista, que nada mais tinham para dar ao povo do que frutos silvestres, raízes e caules subterrâneos!

Abaixo a Troika!

Diz não ao Empobrecimento!

Vota António Pires!






terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O DUX

Independentemente das manobras dilatórias que a equipa de advogados do Dux venha a interpor, desde o putativo incidente de recusa de juiz, até aos recursos sucessivos que sobem até ao Supremo Tribunal de Justiça, de onde saltam para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, o povo não pode esquecer que, segundo a Constituição da República Portuguesa, é em seu nome que deve ser administrada a justiça.
Numa tarde fria e húmida de Inverno, perguntei a um velho pescador, de barbas brancas e cachimbo ao canto da boca,  que encontrei absorto numa praia deserta contemplando a imensidão do mar, o que ele, como um desgraçado plebeu que era, achava do caso Dux. O pescador impassível, sem desviar por um momento o olhar da linha do horizonte, respondeu-me, com uma voz de trovão:
 - Meu filho, ainda és muito novo para entenderes o sentido da vida, mas como vejo que os rituais praxísticos te consomem a alma, talvez a seguinte parábola te possa ajudar:
"Num dia quente de verão, um grupo de estudantes de uma "universidade" privada, onde se formam para a vida "licenciados", "mestres" e "doutores", decidiu, sob as ordens do Dux, ir fazer umas palhaçadas estúpidas e perigosas - as chamadas Praxes - para o meio de um bosque mediterrânico de carrascos, oliveiras, pinheiros mansos e vegetação arbustiva cerrada, quase impenetrável, e muito seca. Na qualidade de chefe do grupo, o Dux exigiu aos seus subordinados que apanhassem lenha e a amontoassem debaixo de uma oliveira, com mais de trezentos anos, para que, quando a noite caísse, ele pudesse acender a Grande Fogueira da Praxe.
Confiando cegamente no Dux, os inocentes segundanistas cumpriram à risca a sua tarefa, finda a qual o tronco da oliveira, com mais de dois metros de diâmetro, deixou de se ver, pois ficou rodeado por um amontoado de cavacos, giestas e gravetos secos. Regressaram então, todos contentes, para uma casa de emigrante que tinham alugado numa aldeia  da serra e que servia de base de apoio aos seus trabalhos académicos de campo, a sua maneira secreta e codificada de dizer Praxe. Depois de jantarem cachorros-quentes e muita cerveja, voltaram, a altas horas da noite,  muito emocionados e vestidos com túnicas brancas de linho - exceto o Dux, que trajava de capa e batina -, para o seu "bosque sagrado", onde teria lugar a cerimónia à volta da fogueira. Quando estavam a cerca de 3 km do objetivo, o Dux disse que todos deviam vendar os olhos com umas faixas de tecido preto, que era a cor da academia, e depois ele próprio, sem venda nos olhos, amarrou os segundanistas uns aos outros, pelos pulsos e tornozelos, com umas cordas de nylon muito resistentes, mas que lhes permitiam arrastar os pés e seguir atrás do Dux, em fila indiana, muito lentamente e aos tropeções. Foi assim, presos de pés e mãos, que todos se sentaram à volta da oliveira sagrada da Praxe, exceto o Dux, que, após queimar com um isqueiro um raminho seco de  carrasco, viu, quase instantaneamente, umas pavorosas labaredas de fogo saírem da pira de lenha, mal tendo tempo de fugir a sete pés em direção à barragem do Alto Rabagão, onde mergulhou na água refrescante, salvando-se assim de uma morte certa. Os segundanistas tiveram menos sorte!...
Alarmados com o fogo no bosque, os aldeões das proximidades chamaram a guarda nacional e os bombeiros que nada mais puderam fazer do que tomar conta da ocorrência e extinguir as chamas.
Isto passou-se num país ocidental e civilizado, que não era Portugal, e, portanto, o Dux veio a ser julgado por um juiz plebeu muito teso, mas honesto, e condenado por homicídio por negligência grosseira."


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Quem vê o seu povo vê o mundo todo.

Fig. Maquinaria com motores de explosão
Nas aldeias da Beira Alta, o povo sábio diz:
- Quem vê o seu povo vê o mundo todo.
Os rebordainhenses e pombarenses  têm tanto orgulho nas suas tradições, usos e costumes ancestrais que estão sempre prontos para defenderem a sua herança cultural, até com unhas e dentes, se for preciso! Esse bairrismo saudável vê-se na língua - o mais pequeno reparo que se faça ao modo castiço como se exprimem, por escrito ou na fala quotidiana, no seu mui querido e melodioso mirandês, leva-os aos arames!
Há umas décadas atrás, por causa do alargamento de um caminho rural, obra necessária  para que a moderna maquinaria agrícola, com motores de explosão (Fig.), pudesse levar o progresso a todo o povo, a Junta de Freguesia houve por bem mandar derrubar uma dita Fonte do Espinheiro, considerada ao tempo, entre os frequentadores habituais das tabernas, o ex-líbris da Aldeia Que Já Foi Vila. Inicialmente, o povo simples que, no dia do derrubamento, andava, na sua maioria, nas segadas, ou, o que estava na França, concentrado no trabalho monótono e fastidioso das linhas de montagem de automóveis, televisões, máquinas de lavar roupa e louça e de muita outra tralha, ficou completamente pasmado quando soube o que se tinha passado!
Felizmente, e por acaso, na véspera desse dia aziago, o partido comunista português tinha reanimado a célula de Rebordainhos, que por lá estava adormecida há muitos anos, para o que desse e viesse, e os seus componentes, mal souberam do desastre, ainda meio estremunhados, correram pela Portela abaixo, quais galgos atrás da lebre, e rapidamente chegaram à igreja, onde, após tomaram de assalto a torre sineira, puseram-se a puxar com quantas forças tinham as cordas dos badalos, fazendo os sinos tocar a rebate durante todo o dia, até que se fez noite cerrada debaixo de uma abóbada celeste negra como breu pontilhada por cerca de duas mil estrelinhas brilhantes... Foi então convocada uma Reunião Geral de Aldeões (RGA), para as cinco horas da madrugada, de modo a não interferir com as jornas que começariam ao nascer do sol, mas, quando ainda poucos camponeses tinham entrado no Salão Nobre da Casa do Povo, uma questão jurídica, relacionada com saber se havia ou não havia quorum, levantada, junto da Mesa, por um dos presentes, que era doutorado em Direito Administrativo pela Universidade de Coimbra, obrigou ao prolongamento dos trabalhos da assembleia pela manhã dentro e pela tarde fora, com pequenos intervalos para enfiar uma bucha, vindo a dar-se por encerrada a sessão aos primeiros alvores do dia seguinte, já com os galos a cantar ao desafio, tendo-se chegado à conclusão, que ficou lavrada em ata, de que se ainda ninguém tivesse feito o 25 de Abril quem o faria seriam eles!
A afronta que constituiu o desmantelamento selvagem de uma obra de arte do tempo do Estado Novo exigia,  no mínimo, para ser reparada com justiça, uma revolução que pusesse tudo de pernas para o ar!
Mas esses primeiros arroubos de indignação acabaram por esmorecer porque  alguns conterrâneos, que entretanto vinham chegando de França para gozarem férias, diziam que lá fora os estrangeiros, mesmo sem quererem saber de fontes ou de espinheiros para nada, tinham uma vida muito mais folgada do que a dos portugueses de Rebordainhos, que  mourejavam todos os dias de sol a sol.
Atualmente, nestes tempos das redes sociais virtuais, por vezes o assunto ainda é aflorado em blogues especializados, mas o povo já não quer saber...
Quando se deu o triste acontecimento da demolição da fonte de pedra, eu não estava em Rebordainhos, mas vi tudo o que por lá se passou, tal e qual.

Quem vê o seu povo vê o mundo todo...



domingo, 18 de janeiro de 2015

O vil metal

Hoje, para quem a vê do sul, a sociedade rebordainhense parece mais injusta na repartição da riqueza dos seus fregueses, relativamente aos tempos das vacas gordas, quando o país era governado por políticos socráticos sob a batuta do “engenheiro” das Novas Oportunidades.
Por mim, que não obrigo ninguém a seguir à risca as minhas palavras carregadas de ideias luminosas, limito-me a dar bons conselhos a quem almeja viver numa sociedade mais justa, mais fraterna e mais livre.
Para começar, Rebordainhos devia acabar, não só com o euro, mas também com todo o dinheiro que, desde a sua antiquíssima e nefanda invenção, lá na Ásia Menor, no antigo reino da Lídia, tem levado o Homem para caminhos de perdição, que o conduzem à autodestruição.
Todos os homens bons da União de Freguesias de Rebordainhos e Pombares,  acompanhados pelas suas mulheres e restante população, presente e ausente, repartida pelas quatro partidas do mundo, deverão reunir em sessão plenária no Grande Auditório da Secção Norte do Núcleo de Interpretação das Gravuras Rupestres do Vale do Côa (GASNNIGRVC), nos Anexos da Casa da Floresta, para deliberarem, por unanimidade e aclamação em pé e de braço no ar, a fixação solene da data do fim da circulação do vil metal dentro dos seus termos territoriais.
No dia acordado, todos deverão dirigir-se para o Largo do Prado, onde numa forja renovada, reconstruída a expensas de uma subscrição pública organizada pelos amigos da terra, serão queimadas as notas de papel, entre vivas à liberdade, e fundidas as moedas de ouro que, nesse ato simbólico de purificação pelo fogo, representam as algemas que ainda prendem muitos rebordainhenses e pombarenses a ídolos dourados, aproveitando-se, contudo, o vil metal derretido para fazer uma estátua ao Cristiano Ronaldo, com quatro metros de altura, a colocar num alto pedestal de granito à entrada do campo da bola.
A União de freguesias entrará, assim, no novo ano de 2015, cheia de prosperidade e recusando pagar a dívida à troika. Passará a vigorar o antigo regime económico de troca direta de bens e serviços entre os cidadãos dessas aldeias que optarem pela via da economia de mercado justo.
Por exemplo, um uobo, que a galinha põe, poderá ser trocado diretamente, no meio da rua,  por duas agulhas de coser sacos de batatas.

Isto será o princípio do fim do capitalismo selvagem!
Juntos podemos!