Numa tarde fria e húmida de Inverno, perguntei a um velho pescador, de barbas brancas e cachimbo ao canto da boca, que encontrei absorto numa praia deserta contemplando a imensidão do mar, o que ele, como um desgraçado plebeu que era, achava do caso Dux. O pescador impassível, sem desviar por um momento o olhar da linha do horizonte, respondeu-me, com uma voz de trovão:
- Meu filho, ainda és muito novo para entenderes o sentido da vida, mas como vejo que os rituais praxísticos te consomem a alma, talvez a seguinte parábola te possa ajudar:
"Num dia quente de verão, um grupo de estudantes de uma "universidade" privada, onde se formam para a vida "licenciados", "mestres" e "doutores", decidiu, sob as ordens do Dux, ir fazer umas palhaçadas estúpidas e perigosas - as chamadas Praxes - para o meio de um bosque mediterrânico de carrascos, oliveiras, pinheiros mansos e vegetação arbustiva cerrada, quase impenetrável, e muito seca. Na qualidade de chefe do grupo, o Dux exigiu aos seus subordinados que apanhassem lenha e a amontoassem debaixo de uma oliveira, com mais de trezentos anos, para que, quando a noite caísse, ele pudesse acender a Grande Fogueira da Praxe.
Confiando cegamente no Dux, os inocentes segundanistas cumpriram à risca a sua tarefa, finda a qual o tronco da oliveira, com mais de dois metros de diâmetro, deixou de se ver, pois ficou rodeado por um amontoado de cavacos, giestas e gravetos secos. Regressaram então, todos contentes, para uma casa de emigrante que tinham alugado numa aldeia da serra e que servia de base de apoio aos seus trabalhos académicos de campo, a sua maneira secreta e codificada de dizer Praxe. Depois de jantarem cachorros-quentes e muita cerveja, voltaram, a altas horas da noite, muito emocionados e vestidos com túnicas brancas de linho - exceto o Dux, que trajava de capa e batina -, para o seu "bosque sagrado", onde teria lugar a cerimónia à volta da fogueira. Quando estavam a cerca de 3 km do objetivo, o Dux disse que todos deviam vendar os olhos com umas faixas de tecido preto, que era a cor da academia, e depois ele próprio, sem venda nos olhos, amarrou os segundanistas uns aos outros, pelos pulsos e tornozelos, com umas cordas de nylon muito resistentes, mas que lhes permitiam arrastar os pés e seguir atrás do Dux, em fila indiana, muito lentamente e aos tropeções. Foi assim, presos de pés e mãos, que todos se sentaram à volta da oliveira sagrada da Praxe, exceto o Dux, que, após queimar com um isqueiro um raminho seco de carrasco, viu, quase instantaneamente, umas pavorosas labaredas de fogo saírem da pira de lenha, mal tendo tempo de fugir a sete pés em direção à barragem do Alto Rabagão, onde mergulhou na água refrescante, salvando-se assim de uma morte certa. Os segundanistas tiveram menos sorte!...
Alarmados com o fogo no bosque, os aldeões das proximidades chamaram a guarda nacional e os bombeiros que nada mais puderam fazer do que tomar conta da ocorrência e extinguir as chamas.
Isto passou-se num país ocidental e civilizado, que não era Portugal, e, portanto, o Dux veio a ser julgado por um juiz plebeu muito teso, mas honesto, e condenado por homicídio por negligência grosseira."

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