Aqui há uns dias atrás, descia eu calmamente por uma das
rústicas veredas da típica aldeia de Rebordainhos, acompanhado, em amena
cavaqueira futebolística, pelo décimo-quinto Conde de Alcântara, herdeiro legítimo do seu ilustre título nobiliárquico que, pelos séculos dos
séculos, vem sendo transmitido de pai para filho, desde que foi outorgado pelo rei
Alarico, da vetusta monarquia visigótica, ao seu mais
valente guerreiro, e, quando nos preparávamos para dar uma passada mais larga para
evitar molhar os pés nas águas cantantes de um arroio que se atravessara inesperadamente no caminho,
para logo se precipitar aos borbotões num milheiral muito verde e fresco, o
conde puxou levemente pela manga do meu casaco de veludo azul escuro e disse-me
com uma voz ansiosa:
-
Ó doutor, nós sabemos que tendes um doutoramento
em Curricula e Aprendizagem, pela Universidade Lusófona de Lisboa, e outro em
Enologia e Gestão de Empresas Vitivinícolas, pelo Instituto Piaget de Arruda
dos Vinhos, de maneira que talvez nos possais esclarecer uma dúvida que não nos
tem deixado dormir nestas últimas noites...
-
Por quem sois, vossa mercê manda! A minha
sapiência estará sempre ao serviço dos mecenas que, tal como vossa senhoria,
tão bem têm defendido o património, a memória e a identidade deste nosso
formoso Reino de Portugal e dos Algarves – declarei humildemente, pensando para
comigo que, perante este patusco, as minhas explicações brilhariam como
diamantes ao sol – a minha sólida formação académica garantia-me, efetivamente,
saberes e competências em quase todas as áreas científicas e humanísticas.
-
Como sois
bondoso, doutor! Preciso tanto da vossa ajuda! O caso é o seguinte: já desde o
25 de Abril de 1974, vimos notando que alguns servos da gleba, debaixo da nossa
alçada senhorial, não nos tratam com a reverência que é devida, por direito
divino, a fidalgos da nossa condição e linhagem. Sendo assim, pretendemos transferir
a sede do nosso condado para a província de Trás-os-Montes, de onde nos dizem
que as gentes do povo são de uma enorme candura e simpatia, pelo que pediremos
a Sua Alteza Real, em audiência privada, que o nosso título seja transformado
em Conde dos Vales Pereiros, mas, antes de darmos este passo incerto, damos
alvíssaras pelas referências que vós, exímio doutor, nos queirais dar sobre o
meio ambiente natural, cultural, socioeconómico e político em que a nossa
pessoa terá de se mover, acaso venha a ocorrer a nossa transferência definitiva
para as terras altas da serra da Nogueira – dizia o conde de Alcântara,
esfregando as mãos de contente.
Prosseguimos então a marcha, e eu
lá lhe fui explicando que aquela gente da serra era muito cândida e alegre! Intimamente,
as mentes e corações dos serranos continuavam a ser banhadas pela luz que
irradia da trilogia “Deus, Pátria, Família” que, num dia de maior inspiração, o
Professor Salazar lhes ensinara numa das suas mais belas e memoráveis lições.
À primeira vista, poderá parecer
que nestes dias de terra queimada esses altos valores humanos não passam de letra morta, mas quem
assim pensa está redondamente enganado! É certo que a cultura de esquerda tem
sido, após o 25 de Abril, dominante nos círculos do poder político e
económico-financeiro de Lisboa, espalhando
miséria e terror pelos campos e praias de Portugal, mas desenganem-se os
pseudointelectuais da capital que elevaram o Aristides à categoria de maior herói
nacional, porque quem faz a verdadeira História é o povo da arraia-miúda que
tem gravados no coração os nomes de D. Dinis, o Lavrador, Nuno Álvares Pereira,
D. João I, D. João II, Vasco da Gama, Luís de Camões, Marquês de Pombal e
Oliveira Salazar!...
Os modestos aldeões, quando se
sentem ameaçados pela presença ostensiva dos políticos corruptos, dizem ámen
com eles e lá vão papagueando a medo o lema ecologista e pós moderno “Linces da
Malcata, Vestígios Fecais, Sustentabilidade”, mas, mal se apanham atrás dos
montes e das moitas, pintam a manta a brincar aos médicos e a fazer caricaturas
do Sócrates, do Portas, da salvadora da pátria, a doutora Catarina Martins, do
indiano e do Passos Coelho, sendo este último desenhado com os dois dentes da
frente muito grandes, um par de orelhas muito compridas e flexíveis, e dentro de um tacho ao lume, a estufar entre
rodelas de cenoura e cebola, temperado com vinho maduro tinto.
A geração de rebordainhenses
nascidos depois de abril é a mais bem preparada de sempre! Mesmo incluindo o
período áureo em que foi vila, Rebordainhos nunca teve uma percentagem tão
elevada (mais de 90 %) de pessoas da sua população ativa doutoradas por
universidades portuguesas e estrangeiras, graças sobretudo à aplicação do
programa Erasmus que incentivou a audaz juventude europeia a partilhar
competências, saberes, metas e objetivos com tal ardor que as fronteiras
físicas e as mentais, que são sempre as mais difíceis de derrubar, caíram, num instante, como castelos de cartas atirados
para o caixote do lixo da História. Nos dias de hoje, uma Europa com fronteiras
é absolutamente impensável!
Em cada ano que passa, no dia da grande festa de verão, o
Largo do Prado enche-se de massa cinzenta
qualificada e em quantidade que
excede, à vontade, o valor crítico necessário para preparar, em menos de uma
década, o lançamento de um foguetão que leve para a lua um homem que num domingo de sol seja
apanhado no monte a roçar mato à hora da missa! Para os céticos que acham
impossível lançar um homem, ou uma mulher, vá, de Rebordainhos para a lua, só
tenho a dizer que em janeiro, numa noite de lua cheia, subam ao outeiro (se
virem verdejar ponham-se a chorar, se virem terrear ponham-se a cantar!), longe
de luzes artificiais, e venham depois dizer-me que as manchas visíveis na face
da lua não desenham, assim um pouco mais ou menos como numa fotografia, os
contornos de um homem com um molho de silvas às costas! Esse triste já lá estava
há muito tempo quando os americanos fizeram a primeira alunagem e, diga-se de
passagem, não enxergaram o pobre pecador porque estavam cegos para o que não
queriam ver; estavam mais interessados na recolha de amostras de rochas lunares
e na realização de ensaios e experiências indispensáveis na construção do
conhecimento pelo método científico! Se tivessem visto o homenzinho, muito
provavelmente tinham-no mandado às malvas!
O caminho epistemológico que
muitos habitantes de Rebordainhos têm vindo a percorrer, com os pés bem
assentes em suaves nuvens brancas dispersas pelo céu azul, conduz, inevitavelmente, à
bifurcação onde se encontraram, no século XVII, o cardeal Belarmino e o velho
Galileu Galilei. Armado com o seu telescópio, Galileu optou pela via larga do
conhecimento científico, e por isso foi severamente punido; por seu lado, o
cardeal, do alto da sua cátedra, recusou-se a olhar para o céu através da
luneta que o físico lhe estendeu para as mãos, argumentando que as sagradas
escrituras eram uma fonte de prova sobre a constituição do céu muito superior à
simples observação através de um telescópio!
Claro que haverá sempre muitos,
talvez os mais lúcidos, que preferem sair dos trilhos do rebanho, desprezando os
políticos que os desprezam em Portugal, e embarcar em Pedras Rubras num avião
low-cost que os leve até Paris, onde as ruas são pavimentadas a ouro, para, ao
fim de meia dúzia de anos, regressarem, no dia da festa, ao volante de potentes
Mercedes de alta cilindrada, com milhões de euros nos bolsos,
preparados para erguerem mansões de sonho, com piscinas de água aquecida, na
sua terra querida!
Os outros, os cismáticos
encalhados nas rochas duras das dúvidas existenciais, não podem ficar muito
mais tempo parados e indecisos no meio do caminho. Ou bem que enveredam pela cosmologia livresca do
cardeal Belarmino que, em linhas gerais, descreve o universo como um espaço
fechado limitado por uma superfície esférica onde se encontram as estrelas que,
tal como o Sol, os planetas e os restantes corpos celestes, giram em volta da
Terra fixa, que ocupa o centro do universo, ou aderem, de corpo e alma, à
cosmologia científica, que é uma grande filha de Galileu, assim entrando de imediato na aventura
fascinante que é procurar compreender o comportamento do bosão de Higgs nas suas relações
íntimas com a fugidia matéria escura.

António Pires
ResponderEliminarA princípio rio-me, porque apresenta ao leitor umas ideias de História mais enrodilhadas do que um novelo depois de um gato ter brincado com ele... Logo, logo, porém, tropeço na expressão racista e perco toda a vontade de rir.
P.S. Espero que saiba que a "verdade científica" defendida pela igreja se fundamentava, mais do que na Bíblia, na adaptação do aristotelismo aos dogmas religiosos: a escolástica, de que é nome maior o de S. Tomás de Aquino.
Cumprimentos