sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Quem vê o seu povo vê o mundo todo.

Fig. Maquinaria com motores de explosão
Nas aldeias da Beira Alta, o povo sábio diz:
- Quem vê o seu povo vê o mundo todo.
Os rebordainhenses e pombarenses  têm tanto orgulho nas suas tradições, usos e costumes ancestrais que estão sempre prontos para defenderem a sua herança cultural, até com unhas e dentes, se for preciso! Esse bairrismo saudável vê-se na língua - o mais pequeno reparo que se faça ao modo castiço como se exprimem, por escrito ou na fala quotidiana, no seu mui querido e melodioso mirandês, leva-os aos arames!
Há umas décadas atrás, por causa do alargamento de um caminho rural, obra necessária  para que a moderna maquinaria agrícola, com motores de explosão (Fig.), pudesse levar o progresso a todo o povo, a Junta de Freguesia houve por bem mandar derrubar uma dita Fonte do Espinheiro, considerada ao tempo, entre os frequentadores habituais das tabernas, o ex-líbris da Aldeia Que Já Foi Vila. Inicialmente, o povo simples que, no dia do derrubamento, andava, na sua maioria, nas segadas, ou, o que estava na França, concentrado no trabalho monótono e fastidioso das linhas de montagem de automóveis, televisões, máquinas de lavar roupa e louça e de muita outra tralha, ficou completamente pasmado quando soube o que se tinha passado!
Felizmente, e por acaso, na véspera desse dia aziago, o partido comunista português tinha reanimado a célula de Rebordainhos, que por lá estava adormecida há muitos anos, para o que desse e viesse, e os seus componentes, mal souberam do desastre, ainda meio estremunhados, correram pela Portela abaixo, quais galgos atrás da lebre, e rapidamente chegaram à igreja, onde, após tomaram de assalto a torre sineira, puseram-se a puxar com quantas forças tinham as cordas dos badalos, fazendo os sinos tocar a rebate durante todo o dia, até que se fez noite cerrada debaixo de uma abóbada celeste negra como breu pontilhada por cerca de duas mil estrelinhas brilhantes... Foi então convocada uma Reunião Geral de Aldeões (RGA), para as cinco horas da madrugada, de modo a não interferir com as jornas que começariam ao nascer do sol, mas, quando ainda poucos camponeses tinham entrado no Salão Nobre da Casa do Povo, uma questão jurídica, relacionada com saber se havia ou não havia quorum, levantada, junto da Mesa, por um dos presentes, que era doutorado em Direito Administrativo pela Universidade de Coimbra, obrigou ao prolongamento dos trabalhos da assembleia pela manhã dentro e pela tarde fora, com pequenos intervalos para enfiar uma bucha, vindo a dar-se por encerrada a sessão aos primeiros alvores do dia seguinte, já com os galos a cantar ao desafio, tendo-se chegado à conclusão, que ficou lavrada em ata, de que se ainda ninguém tivesse feito o 25 de Abril quem o faria seriam eles!
A afronta que constituiu o desmantelamento selvagem de uma obra de arte do tempo do Estado Novo exigia,  no mínimo, para ser reparada com justiça, uma revolução que pusesse tudo de pernas para o ar!
Mas esses primeiros arroubos de indignação acabaram por esmorecer porque  alguns conterrâneos, que entretanto vinham chegando de França para gozarem férias, diziam que lá fora os estrangeiros, mesmo sem quererem saber de fontes ou de espinheiros para nada, tinham uma vida muito mais folgada do que a dos portugueses de Rebordainhos, que  mourejavam todos os dias de sol a sol.
Atualmente, nestes tempos das redes sociais virtuais, por vezes o assunto ainda é aflorado em blogues especializados, mas o povo já não quer saber...
Quando se deu o triste acontecimento da demolição da fonte de pedra, eu não estava em Rebordainhos, mas vi tudo o que por lá se passou, tal e qual.

Quem vê o seu povo vê o mundo todo...



2 comentários:

  1. António

    Mas olhe que devia estar ensonado no dia em que se fez assembleia de freguesia e, com uma excepção apenas, toda a gente votou a favor da destruição da fonte. Não está certo atirar as culpas só para cima de alguns, depois de o mal estar feito e de se não gostar de ver o resultado. Garanto-lhe que é sempre isto que respondo de cada vez que o assunto vem à baila, porque quem tem telhados de vida não deve atirar pedras.

    Ainda sobre a fonte: não era centenária. A fonte original estava metida no muro da da D. Maria Lopas e seria substituída por aquela que todos conhecemos, já em vida de minha mãe que nasceu em 1919.
    (pode vê-la aqui: http://ascrrebordainhos.blogspot.pt/2008/09/fotografias-muito-antigas.html)

    P.S. Há-de explicar-me como é que se corre Portela acima para chegar à igreja...

    Cumprimento

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  2. Fátima,

    "Correr pela Portela acima" é como quem diz!...
    No entanto, agradeço-lhe as críticas que, sendo muito construtivas, vêm mesmo a propósito, dado o conteúdo do artigo.
    Por vezes, cometo algumas falhas flagrantes, aos olhos de quem conhece bem Rebordainhos, mas correndo o risco de a emenda ser pior do que o soneto vou já trocar o "acima" pelo "abaixo". Também lhe dou razão quanto à idade da fonte derrubada. Compreenderá, melhor do que eu, que estes lapsos são ossos do ofício de quem escreve.

    Cumprimentos

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